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Esta é uma pergunta com múltiplas facetas que alguns até a evitam, talvez por falta de costume, de maior profundidade no pensar ou apenas curiosidade. Porém, o fundamental dela é que você aprofunde o seu saber para compreender, principalmente a diferença entre ser e estar. De modo simples digo que quando você está preso à personalidade é possível que você apenas esteja, que apenas se identifique com a representação de um certo papel social em um ambiente específico. Fomos ensinados a responder o que fazemos, mas, raramente, paramos para investigar quem somos.
A língua portuguesa singular e rica como é, guarda em si uma sabedoria que poucas línguas conseguem expressar com tanta precisão: a diferença entre ser e estar. Verbos distintos para experiências distintas. Um aponta para o transitório, o circunstancial, o papel. O outro aponta para algo mais essencial — aquilo que permanece quando o papel termina. Por exemplo, em determinado tempo da minha vida eu já estive trabalhador rural, só que essa experiência pouco durou, logo eu não era, eu estive. Percebe a diferença? Assim como estive na posição mencionada, estive em outras. Quem eu era simplesmente nesse tempo não tinha a ver com o trabalho que eu executava, nesse tempo de juventude eu era, podemos dizer assim, um buscador; alguém que se identificava com a busca de oportunidade de trabalho e sobrevivência. Então era isso que me movia e motivava.
Certa vez, há alguns anos, quando conversava sobre esse assunto com a esposa de um amigo, ela me indagou sobre a conclusão de que ser e estar são coisas diferentes, e como cheguei a ela. Naquele momento eu simplifiquei a resposta, dizendo que a conclusão obedecia a uma certa lógica. Hoje isto está mais claro: o estar é circunstancial, temporário, ligado a um papel, a uma função, um contexto, um ambiente; é adaptável, fluido. O ser aponta para algo essencial, mais contínuo, mais permanente, apesar de também evoluir — aquilo que te move por dentro, independentemente do papel que você ocupa por fora. Sendo assim, vale ressaltar que a confusão entre os dois estados pode gerar sofrimento, desequilíbrio: quando a pessoa se identifica demais com um papel que está exercendo, e esse papel acaba ou muda, ela sente como se tivesse perdido a si mesma.
O que atravessa ou une tudo. Há uma diferença entre olhar para trás com nostalgia e olhar para trás com atenção. A nostalgia seleciona o que foi bom ou o que foi difícil. A atenção busca outra coisa — busca o padrão. Busca o que se repete. Busca o fio.
Quando olho para a minha trajetória, vejo circunstâncias muito diferentes entre si. Ambientes distintos, funções distintas, fases que pouco se parecem umas com as outras na superfície. Mas há algo que atravessa tudo isso. Uma mesma orientação interior que estava presente no jovem que buscava trabalho e sobrevivência, e que continua presente hoje — transformada, amadurecida, mas reconhecível. Esse é o fio. Ele não é óbvio no começo. Na juventude, raramente temos clareza suficiente para nomeá-lo. Ele age por baixo, silencioso, movendo escolhas que nem sempre compreendemos na hora. Só o tempo, o conhecimento adquirido — e uma certa disposição para se olhar com honestidade — revelam o que estava lá desde o princípio.
E aqui está algo importante: o fio não é um destino. Não é um plano que você ou alguém traçou e executou. É uma essência que se expressa de formas diferentes conforme o momento da vida. O buscador de outrora e o compartilhador de hoje não são identidades opostas — são o mesmo ser em estágios diferentes da mesma rota. A busca não acabou, ela evoluiu. Mudou de direção — de fora para dentro, e depois de dentro para fora, em direção aos outros.
Reconhecer esse fio é um ato de autoconhecimento, mas é também um ato de coragem. Porque exige honestidade sobre o que realmente te move — não o que deveria te mover, não o que os outros esperam que te mova, mas o que de fato pulsa por baixo de tudo.
E quando você encontra esse fio, algo muda. Não necessariamente as circunstâncias externas — os desafios continuam, a vida continua exigindo. Mas muda a relação que você tem com o seu próprio caminhar. Você deixa de ser empurrado pelos acontecimentos e começa a caminhar com uma direção que vem de dentro. Não porque você passou a controlar tudo. Mas porque você passou a se conhecer.
Caminhar com direção própria; aquela que conscientemente você escolheu. Existe uma diferença fundamental entre uma vida que acontece e uma vida que se constrói. Não estou falando de controle — a ilusão de que podemos dominar tudo o que nos cerca já custou caro a muita gente. Estou falando de algo mais sutil e mais poderoso: a diferença entre ser conduzido pelas circunstâncias e caminhar a partir de um centro. Esse centro é o que descobrimos quando encontramos o fio. Sem ele, a rota de vida se define de fora para dentro. As oportunidades chegam, e você as aceita ou rejeita sem um critério profundo. As pessoas ao redor esperam determinadas coisas de você, e você vai se moldando a essas expectativas. Os papéis se acumulam, as fases se sucedem, e há uma sensação — às vezes surda, às vezes gritante — de que você está vivendo uma vida que não é inteiramente sua.
Com esse centro, algo muda na orientação. Não desaparecem os imprevistos, não desaparecem as dificuldades, não desaparecem os momentos em que você precisa estar em lugares ou funções que não escolheria livremente. Mas há uma bússola interna funcionando. E essa bússola não aponta para um destino fixo — aponta para uma direção coerente com quem você é. A rota evolutiva que estou falando não é uma escada em linha reta. É mais parecida com um rio — que encontra obstáculos, que muda de curso, que às vezes parece estagnado e de repente acelera. Mas que tem uma origem e uma tendência, que fluem para algum lugar. O que define se essa rota é evolutiva não é a ausência de tropeços. É a presença de consciência. É a capacidade de, mesmo nos momentos de desvio, reconhecer onde você está, retomar o fio e seguir.
E aqui vale uma honestidade que o tempo ensina: nem sempre sabemos quem somos com clareza total. O autoconhecimento não é um estado que se alcança de uma vez — é um processo que se aprofunda ao longo da vida. O que muda, quando você começa a se perguntar quem você é, é que você passa a viver com mais atenção à própria experiência. Você aprende com o que vive em vez de apenas atravessá-lo. Cada fase deixa de ser apenas um estar que passou. Passa a ser também uma camada do ser consciente que vai se formando.
E é assim que uma trajetória — mesmo com todas as suas contradições e surpresas — vai ganhando sentido. Não o sentido imposto de fora, não o sentido que outros definem para você., mas, aquele que emerge de dentro, quando você tem coragem de perguntar e honestidade de escutar a resposta.
Enfim, creio que está claro que ser e estar pertencem a polos diferentes de uma mesma jornada: estar pertence à temporalidade, a circunstâncias que não são definitivas, que são meios e não fim. Por sua vez ser é algo a ser construído, edificado, em bases sólidas para garantir que a rota evolutiva venha a alcançar sentido e perenidade.
Quanto ao que me compete ser ainda hoje é que continuo sendo um buscador, só que em uma rota evolutiva mais significativa, ou seja, o que agora me define é a vontade de compartilhar o que já aprendi, sem olvidar que ainda sou um aprendiz. No mais, espero que esta reflexão faça sentido para você que me lê e compreende.
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