


O perdão não é apenas o ato ou ação de esquecer ou, simplesmente, “deixar para lá” uma ofensa ou ação danosa assemelhada perpetrada por outrem em relação à nossa pessoa. Visto de forma mais profunda e com o intuito de proporcionar benefícios existenciais perenes, o perdão é um processo mental e, até mesmo, espiritual, que consiste em libertar-se da raiva, rancor e ressentimentos que tanto podem estar relacionados a atos gerados por terceiros contra si ou, ainda, oriundos da própria pessoa contra si mesmo. Esta última ação, por exemplo, pode estar relacionada a escolhas impensadas ou atos impulsivos, instintivos ou autodestrutivos. Apesar de parecer improvável a pessoa sentir raiva de si mesmo, a realidade demonstra ser verdadeira essa ocorrência, daí a necessidade de, em algum momento, exercitar o autoperdão visando uma limpeza psíquica como denomino terapeuticamente este processo. Lembrando ainda que o sentimento negativo contra si mesmo, pode muitas vezes ser inconsciente, o que não afasta suas repercussões negativas na existência de quem o sente.
O tal do “deixar para lá” a que me referi em relação ao ato de perdoar é algo muito superficial que só atenua momentaneamente os danos da ofensa sentida, visto que qualquer gatilho traz de volta o sentimento negativo que causa mal estar. Sendo assim, a prática do perdão é resultante de um processo de autoanálise para em seguida, vir a transformar-se em autoconvencimento, tendo em vista essa autoaceitação produzirá benefícios relativos ao equilíbrio emocional, físico e espiritual.
Quando falo sobre este assunto, me vem à mente minha própria experiência pessoal, pois, na minha infância vivenciei situações dolorosas tanto físicas quanto psicológicas, resultando delas muitos sentimentos como raiva, ressentimentos e ódio, principalmente em relação à minha mãe biológica e ao padrasto que ela trouxe para a minha vida. Boa parte desses sentimentos eu interiorizei, ou seja, ficaram alojadas ou censuradas em meu interior, algumas a nível subconsciente, outras no plano inconsciente. Porém, a depender da ocasião eles emergiam com toda fúria resultando em ações eivadas de raiva e ira, e, às vezes, dirigidas a pessoas ou coisas que estavam ao meu redor. Levei muito tempo a compreender aquelas minhas ações. Somente a partir dos vinte e nove anos de idade, mais ou menos, é que passei a prestar a atenção naqueles acontecimentos e buscar suas causas, o que ocorreu depois de ler alguns livros com teor psicológico ou existencial. O que me levou a compreensão de que deveria passar a exercitar o perdão, o que, como já disse foi um processo, às vezes difícil, pois, não se perdoa da noite para o dia.
Enfim, respondendo a pergunta inicial desta reflexão, o perdão serve para aliviar a alma; para restabelecer o equilíbrio emocional e proporcionar paz de espírito. É um elemento fundamental para aqueles que escolhem, de algum modo, evoluir conscientemente em seu plano existencial.
Algo que também convém observar é que o ato de perdoar, de certo modo, beneficia muito mais a quem perdoa do que a quem é perdoado. Isto porque esse aprendizado e a sua posterior prática, traz em si a ideia de tornar-se melhor através de condutas mais fraternas com vistas a criar harmonia e paz de espírito que tanto se deseja. O ato de perdoar é em si uma prática terapêutica de grande e, às vezes, imensurável alcance. Ninguém evolui se permanece preso a rancores, mágoas e ressentimentos, já que o acumulo desses sentimentos negativos podem vir a produzir uma gama de desconfortos emocionais e, até mesmo, físicos, através da somatização dos mesmos. Enfim, as causas de muitas doenças, são explicáveis além dos processos bioquímico e físicos. Sendo assim, o perdão quando exercitado conscientemente, serve como elemento metafísico de autocura.
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